O anúncio foi feito dia 06/05, no Palácio do Itamaraty, pelo Ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, logo após encontro com o Ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Eduardo Rodrígues Parilla.
Segundo o Ministro Antonio Patriota: “Estamos nos organizando para receber um número maior de médicos aqui, em vista do déficit de profissionais de medicina no Brasil”.
Interessante notar, que no mesmo pronunciando, o Ministro brasileiro destacou que na reunião foram alinhavados também acordos entre Brasil e Cuba nas áreas farmacêutica, comercial e econômica, inclusive reforma dos aeroportos de Havana e Santiago de Cuba com financiamento brasileiro (!)
Quer dizer então que sob a camuflagem de solucionar o problema do atendimento médico da população brasileira há outras negociações em andamento? Além de importar os médicos cubanos o Brasil vai financiar reformas estruturais em Cuba? Parece que agora nós brasileiros estamos sendo feitos de bobos sem cerimônias, em mídia aberta, pelo Governo petista!
Mas antes de tirar conclusões, vamos analisar a justificativa do Ministro: segundo Antonio Patriota, a contratação dos médicos cubanos resolveria o déficit de profissionais de medicina no interior do Brasil.
Para refletir melhor sobre a questão, levantei alguns dados.
Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho Federal de Medicina ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no Brasil 371.788 médicos, sendo que destes, 260.251 (70%) dos doutores estão alocados nas regiões Sul e Sudeste. Na média nacional, há 1,95 médicos por cada mil habitantes; no Distrito Federal, 4,02; no Rio de Janeiro, 3,57; em São Paulo, 2,58 e no Rio Grande do Sul, 2,31, Espírito Santo, 1,90. No entanto, em Estados como Amapá, Pará e Maranhão, há menos de 1 médico para mil habitantes. E por quê? Porque não há incentivo do Governo Federal para médicos recém formados se instalarem em regiões carentes.
Além disso, o modelo de formação de médicos no Brasil está constituído em sua maioria por faculdades particulares (58%) com mensalidades bastante caras e segundo dados do Ministério da Educação (MEC), nas públicas, 88% dos estudantes vêm de escolas particulares. Há no Brasil, uma inversão de valores, onde o pobre trabalha para pagar a faculdade particular enquanto o rico tem boa formação em escolas particulares e passa no vestibular da universidade federal. E por quê? Porque não há incentivo do Governo Federal na educação de jovens carentes, permitindo que possam cursar uma faculdade de medicina, muito menos incentivo e investimento na implantação de mais faculdades públicas de medicina.
Todos sabem que o SUS está um caos, atendimentos médicos que duram poucos minutos, filas intermináveis e 6 meses para o cidadão conseguir uma consulta. Exames e cirurgias são artigos de luxo para a população carente. E por quê? Porque o governo não investe no atendimento médico para a população de baixa renda.
Então quer dizer que o Governo Federal não investe nos médicos e nas condições médicas brasileiras, gerando uma situação gravíssima para a população, e para resolver o problema quer importar 6 mil médicos cubanos? Não tem algo errado nessa medida?
A aceitação de médicos formados fora de nosso país depende da validação do diploma, realizada através de uma prova denominada “Revalida”, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Em nenhum momento o Ministro Antonio Patriota se pronunciou sobre o modo como serão validados os registros dos 6 mil médicos cubanos que pretende importar.
Com ou sem a validação, a situação é preocupante. Segundo dados do próprio INEP, em 2012 de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Em 2011, dos 140 inscritos, somente 15 passaram (10,7%). Então é sob os cuidados deste tipo de profissional da medicina que o Governo pretende deixar a população de regiões carentes?
E nem há que se falar na dificuldade de compreensão da língua. Apesar da origem comum dos radicais latinos das línguas faladas no Brasil e em Cuba, imagine-se um médico cubano tratando um paciente no interior do Ceará! Como ficaria, neste caso, a qualidade de comunicação médico-paciente?
Mas a verdade ainda não está aí. Considerando que a reunião dos Ministros brasileiro e cubano incluiu acordos farmacêuticos, comerciais e financeiros, estaria a importação de médicos cubanos pelo Brasil isenta de interesses obscuros de ambas as partes?
Existe um acordo de cessão de médicos entre Cuba e Venezuela. Por este acordo, atualmente, o governo de Cuba cobra U$ 11,4 mil por mês por médico cedido ao governo da Venezuela. Os médicos, no entanto, recebem o equivalente a U$ 230 mensais na Venezuela, mais ajuda de custo de U$ 46 dólares. Há 45 mil médicos cedidos, que geram receita anual para Cuba de U$ 4,5 bilhões por ano. Se a conta fosse no Brasil, considerando o dólar de hoje, cada médico cubano custaria R$ 23 mil mensais, mas ficaria com o equivalente a um salário mínimo por mês e o troco negociado entre Cuba e Brasil.
Minha indignação, portanto, não passa nem perto da xenofobia. Minha indignação vem do descaso do Governo com a população e no vislumbre de interesses obscuros nas negociações entre Brasil e Cuba.
A decisão anunciada pelo Governo petista esconde interesses velados. A verdadeira motivação não foi anunciada pelo Ministro das Relações Exteriores, ficou guardada dentro do gabinete do Palácio do Itamaraty e apenas uma fumaça de desconfiança escapou para o público, levando vários segmentos da sociedade brasileira a se rebelarem contra a notícia: jornais e jornalistas de renome, Conselhos Federal e Regionais de Medicina, Associação Médica Brasileira, formadores de opinião de todas as classes.
Ao invés de importar 6 mil médicos cubanos, se o Governo realmente estivesse mobilizado pelo bem comum, deveria investir na criação de mais faculdades públicas de medicina, na formação de mais médicos brasileiros, no incentivo para que profissionais recém-formados decidissem optar pelo início da profissão em regiões carentes, na instalação de equipamentos de última geração para realização de exames e tratamentos em locais pobres.
A solução, portanto, não é importar médicos, mas sim, resolver os problemas internos, valorizar nossos profissionais e cuidar de nossa população.
Esses são os médicos que vêm!