Por Marcus Alves
A
democracia pressupõe a participação do povo na administração pública. Para
exercer este poder, a população elege representantes, dando-lhes uma procuração
através do voto que os habilita a lutar pelo bem estar social e reivindicar seus
bens maiores junto às esferas mais altas do poder constituído.
Seria
realmente muito bom se fosse assim. O que ocorre é que as demandas populares
não são priorizadas pelos representantes eleitos tanto do poder administrativo,
quanto do legislativo. Normalmente, os tais “representantes do povo” acabam se
perdendo na rede de interesses que envenenam os corredores do planalto e do
congresso.
Resultado
disso: um povo sofrido, oprimido, cheio de necessidades não atendidas, que luta
bravamente para sobreviver apesar dos péssimos serviços públicos oferecidos
pelo país que registra uma das cargas tributárias mais pesadas do planeta.
Apesar
deste contexto, o Brasil é um país pacífico, que pouco registra em sua história
manifestações populares tendentes a mudar essa realidade sócio-política
desigual.
Em
outras partes do mundo tais movimentos são intensos, como o Movimento Negro
norte-americano de Martin Luther King, com a “Marcha sobre Washington” de 1963,
que reuniu 250 mil pessoas, resultando após alguns anos na conquista de
direitos civis e políticos para negros americanos. As diversas manifestações
populares contra o regime do Apartheid (1948-1994), África do Sul, que tornou
famoso Nelson Mandela e especialmente a partir de 1989 passou a alcançar resultados
contra a segregação racial. O “Panelaço”, na Argentina (2001), que levou o povo
às ruas, com panelas nas mãos, exigindo a queda do Presidente Fernando De La Rúa,
por ter este determinado o confisco dos depósitos bancários da população para
conter crise financeira nacional. A “Revolução Amarelo-Laranja” (2007), levou
monges budistas a protestarem contra a precária situação econômica de Mianmar
(antiga Birmânia), movimento que representou o maior levante popular do Sudeste
Asiático. A insurreição popular na Geórgia (2007), que reuniu cerca de 40 mil
pessoas nas ruas levando à convocação de eleições parlamentares antecipadas
contra o Presidente Mikhail Saakashvili. Os protestos em Teerã (2009), que levaram
o povo iraniano às ruas por 10 dias para pedir queda do Presidente Mahmoud
Ahmadinejad, que segundo a oposição foi reeleito com fraude e corrupção. Os
“Camisas Vermelhas” da Tailândia (2010), reuniram cerca de 65 mil manifestantes
por uma semana na capital tailandesa para exigir a renúncia do governo. As
manifestações na Tunísia (2011) que levaram o Presidente Zine al-Abidine Ben
Ali a renunciar, depois de 23 anos no poder e fugir para a Arábia Saudita. Os
protestos no Egito (2011) que obrigaram o Presidente Hosni Mubarak a renunciar depois de 30 anos à frente do
governo.
No
Brasil, registramos poucas manifestações populares se levarmos em conta suas
proporções continentais e sua população diversificada.
Temos
a Revolta da Vacina (1904), mobilizada pelo sanitarista Osvaldo Cruz, que para
evitar a continuidade das epidemias organizou protestos de milhares de pessoas
nas ruas, tornando a vacinação contra a varíola obrigatória. O suicídio de
Getúlio Vargas (1954), que com sua carta-testamento fazendo ferrenhas críticas
aos seus opositores levou cerca de 3 milhões de pessoas a protestarem nas ruas
de várias cidades do país. A “Marcha da Família” que em 1964 arregimentou quase
500 mil pessoas contra o presidente João Goulart e a “Marcha da Vitória”, que
poucos dias depois reuniu cerca de 1 milhão de manifestantes para comemorar a
queda do Presidente. Os grandes Comícios das “Diretas Já” (1984), que tiveram a
participação de aproximadamente 2,5 milhões de pessoas (1 milhão no Rio e 1,5
em São Paulo), tendo sido considerado o maior movimento popular brasileiro,
impulsionando a aprovação da nova Constituição Federal de 1988. O “Impeachment”
do Presidente Fernando Collor (1992), deflagrado pelo movimento dos “caras
pintadas”, reunindo cerca de 750 mil jovens de todo o país.
E
agora estamos vendo um novo movimento nas ruas do Brasil. Com a facilidade da
comunicação “on line” via redes sociais, especialmente Facebook, o “Movimento
Passe Livre” vem unindo pessoas de todos os cantos do país, que se juntam em passeatas
com pautas que começam com a redução de tarifas de ônibus e terminam na
exteriorização de uma insatisfação geral do brasileiro com seus governantes.
O
movimento, então, agora é contra tudo o que está errado no país: saúde deficiente,
transporte público precário, pouco estímulo à criação de postos de trabalho, impostos
impagáveis, corrupção espalhada por todos os órgãos públicos. São prioridades
que afetam a vida dos cidadãos comuns. A lista é grande e a cada dia entram
mais questionamentos nas passeatas, alguns de âmbito nacional, outros de âmbito
local, pois o movimento se espalhou por várias cidades brasileiras
simultaneamente. A PC 37, que quer impedir a autonomia do Ministério Público
nas investigações policiais, entrou na lista de protestos.
E
o tom deste movimento é diferente de tudo o que consta dos manuais, por duas
razões: primeiro porque o movimento é intenso, com a população ganhando as ruas
dias e dias em diversas localidades, desde capitais até pequenas cidades do
interior; de outro lado, porque se esperava que os partidos políticos iriam
tirar vantagem da situação, mas não conseguiram. Os organizadores expressam
claro repúdio à participação política de qualquer natureza, pois consideram que
os partidos fazem parte da maioria dos escândalos públicos. A manifestação, por
assim dizer, segue isenta de politicagem, refletindo unicamente a indignação popular
contra os governantes, contra as políticas públicas e contra a precária qualidade
de vida do brasileiro.
Temia-se
que as reivindicações inicialmente justas como redução das tarifas de ônibus
estivessem apenas servindo de “pano de fundo” para arruaças e vandalismos, mas
o movimento, em sua maior parte, segue pacífico e focado no objetivo principal.
É certo que algumas manifestações contaram com a participação invasiva de
vândalos, mas há detalhes importantes: no dia 18/06, no Rio de Janeiro, um
grupo de jovens foi ao centro da cidade para tentar limpar e consertar o que os
vândalos quebraram durante a manifestação do dia anterior. E em São Paulo,
enquanto um grupo de desordeiros derrubava o portão de entrada do Palácio dos
Bandeirantes, outro o recolocava no lugar.
O
sábio Ulysses Guimarães dizia “a única coisa que mete medo em político é o povo
na rua”.
Uma
semana depois de iniciado o movimento, a avaliação do governo Dilma caiu
meteoricamente 8 pontos: de 63% para 55%, e os gestores públicos já começaram a
apresentar propostas de redução de tarifas de ônibus e custo de vida.
O
Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, deixou escapar
que “o bicho vai pegar”.
E
o “bicho” tem que pegar mesmo.
A
visita do Papa Francisco ao Brasil custará aos cobres públicos brasileiros
R$118 milhões, incluindo verba federal, estadual e municipal. Os Jogos Pan-Americanos
do Rio de Janeiro começaram com um orçamento de gastos públicos de R$ 409
milhões em 2002 e em 2007 terminaram em R$3,2 bilhões (crescimentos de 684%).
O
orçamento público para a Copa do Mundo de 2014 já está em R$28 bilhões
incluindo verbas para estádios, mobilidade urbana, melhorias em portos e
aeroportos e a previsão é que chegue a R$33 bilhões. Só para adequar os
Estádios do Maracanã e o Estádio Mané Garrincha, o Brasil vai gastar
respectivamente R$ 1,049 bilhões e R$ 1,2 bilhão. O país vai custear 85,5% das
obras do Mundial com dinheiro dos governos federal, estaduais e municipais. E
diante da confusão, o Presidente da FIFA, Joseph Blatter, resolver se explicar:
“Não foi a FIFA que impôs a Copa do Mundo ao Brasil. Foi o Brasil que fez tudo
o que pode para ser sede da competição”. Comparativamente, enquanto a Copa já
está orçada em R$28 bilhões, o Programa Bolsa Família vai gastar R$ 21,4
bilhões neste ano.
Realmente,
o governo não pode continuar sem questionamento. O “Movimento Passe Livre”, que
começou inocente, vem ganhando força e foco. Engatinha em direção à formação de
lideranças populares e pede passagem para por em prática a democracia que foi subvertida.
Se os “representantes do povo” não o representam, o brado do gigante que
finalmente acordou é ouvido em todos os cantos, forte, heróico, retumbante,
mostrando ao Brasil que “um filho teu não foge à luta”.
Este
é o povo nas ruas que se vê!

Concordo com suas colocações.
ResponderExcluirSe nossos políticos se preocupassem com suas promessas de campanha e deixassem suas contas bancárias de lado o Brasil seria um paraíso. Se esses trabalhassem pelo amor ao povo, pelo Brasil e pelo cargo que ocupam não teríamos tanta corrupção e tanta falta de “vergonha na cara”.
Seriamos o 1º lugar no mundo tanto em belezas naturais quanto financeira.
O povo não é e nunca foi ignorante, porém nem nossa natureza pacifica está tolerando tanta coisa errada. Não concordo com o vandalismo que grupos isolados estão promovendo, mas até esses grupos serão sufocados pela massa que se levanta.
Acho ainda que o povo teria que ir às ruas não só por algumas horas e sim até nossos dirigentes mudarem a forma de governar, parar sim o Brasil até nós sermos tradados com respeito e dignidade, pois é o mínimo que a nação brasileira merece.
Andréia Silvestrini